O fim
Caros amigos,
Iniciei este blogue há três anos com o intuito de proporcionar um espaço de discussão de assuntos moçambicanos com privilégio especial para a abordagem sociológica. A minha ideia inicial era de encorajar estudantes de sociologia, em particular, e das ciências sociais, em geral, a trocar ideias entre si partindo dos instrumentos conceituais, teóricos e analíticos da sociologia. Tinha em mente, sobretudo, aqueles que estudaram sociologia e ciências sociais na altura em que era professor visitante na Universidade Eduardo Mondlane, mas também um círculo alargado de jovens genuinamente interessados numa abordagem distanciada, mas crítica do país. Inicialmente, alguns submeteram textos que foram calorosamente discutidos. O entusiasmo inicial, contudo, não perdurou, embora um e outro tenham continuado a frequentar o blogue através de comentários pontuais.
Pela dinâmica das discussões na blogosfera o blogue “ideias críticas” foi ganhando um cunho cada vez mais político com incursões mais ou menos ousadas nos meandros do quotidiano político do país, principalmente através das rubricas “o fenómeno da bicha” e “fala sem consequências”. O carácter sociológico foi ficando menos vincado tendo encontrado refúgio na rubrica “a caixa de ferramentas do sociólogo”. Ultimamente, o interesse pelas questões das ciências sociais foi preservado apenas nas rubricas “xithlangu” e “direito à razão” com comentários sobre a cultura de debate.
Penso que apesar disto tudo o blogue cumpriu com o seu objectivo principal de estimular reflexões sobre o país baseadas na distância crítica. Alguns debates foram bem quentes e tenho, inclusivamente, a sensação de que a minha insistência numa atitude crítica de princípio na abordagem de seja qual for o tema levou algumas pessoas ao desespero ou mesmo à dúvida sobre se com o tipo de sociologia que privilegio se pode construir qualquer país que seja. Não tenho respostas para muitas perguntas, mas para essa sobre a utilidade dessa sociologia tenho: de facto, quem esperar por ela para construir um país vai esperar, esperar e... esperar. A sociologia não produz o tipo de conhecimento susceptível de construir um país nos moldes imaginados por aqueles que acham que o útil é só aquilo que constrói (visivelmente). A sociologia, na realidade, não serve para muita coisa.
É uma maneira de estar no mundo. É um ponto de vista que se desdobra em vários, curioso, de olhos abertos, sempre à procura de novas maneiras de apreender o mundo. É uma maneira de estar no mundo que nos devolve à infância dando-nos os olhos das crianças para redescobrirmos as coisas, mas também equipando-nos com alguns instrumentos que nos permitem interrogar o nosso próprio olhar. A sociologia é uma ciência narcisa: está muito ocupada consigo própria para se meter com as coisas da vida. É um acto de introspecção sobre as razões que temos para descrevermos o mundo da forma como o descrevemos. E a pergunta é sempre de saber não só se o mundo que descrevemos corresponde ao que vemos, mas também como vemos, de onde vem a certeza que temos de que vemos e de que o mundo que descrevemos realmente existe. Portanto, a sociologia é teoria de conhecimento, mas também metodologia.
A sociologia é a aventura do conhecimento. Ela permite-nos não só apreendermos o mundo, mas também saber como o apreendemos e, através de interpelações críticas feitas pelos outros, revermos a nossa maneira de apreender, aperfeiçoar posturas, posições, perspectivas e ângulos. A sociologia é uma longa conversa que só tem início, mas não tem fim. Um assunto conduz a outro. Cada interpelação, cada opinião, cada ponto de vista representam atalhos irresistíveis pelos quais descemos, e caminhamos, sem a certeza de um dia voltarmos à estrada principal. Por vezes levam-nos a outras estradas principais. A sociologia é um labirinto cheio de musas a assobiarem. Ela é a perdição.
Tanto papo para dizer que registo a passagem recente do 50.000mo visitante (de certeza que metade das visitas foram feitas por mim próprio!) com orgulho na esperança de que todos quantos passaram por aqui tenham conseguido pegar um pouco do entusiasmo que eu tenho pela sociologia. Os textos reunidos aqui no blogue são o meu monumento especial e particular a esse entusiasmo. O vosso interesse empresta estética a este monumento.
Tempo de dizer adeus!
Decidi, depois de longa e difícil reflexão, que é altura de fechar este capítulo. Há praticamente um ano que venho lutando com o tempo, e sempre a perder. A vida académica, quando levada a sério (e eu tento fazer isso), é impiedosa para quem não sabe gerir o seu tempo. E eu não sei. Dar aulas, corrigir trabalhos, supervisar teses, ler (não só livros de sociologia, mas também obras de literatura geral), proferir palestras, escrever artigos, compilar livros, organizar conferências, participar em conferências, discutir com colegas, pesquisar, preparar projectos de pesquisa, procurar financiamentos, ler e comentar todo o tipo de trabalhos que colegas, estudantes e mesmo desconhecidos submetem à minha atenção, avaliar artigos para publicações em revistas especializadas, fazer política académica e uma série de outras coisas não é coisa fácil. Tentar dar conta de tudo isso significa ficar a dever muita coisa e a muita gente. E as minhas dívidas subiram astronomicamente nos últimos tempos. De alguns colegas até tenho que me esconder para não me cobrarem certas coisas. E isso não dá. Isso é para não falar de todas as outras coisas que também fazem parte da vida: dançar, cantar, praticar desporto, portar-se mal, brincar com as crianças, relaxar, enfim, gozar a vida. Tudo isso fica parado. Também não dá.
No próximo mês de junho começa uma série de conferências que precisam de ser conciliadas com as aulas. Depois disso vou passar praticamente dois meses na África Austral a fazer pesquisas longe, provavelmente, da internet ou, pelo menos, com acesso difícil. Ao regressar, em meados de setembro, vou me preparar para abraçar novo emprego e novos desafios (com mais responsabilidades administrativas) o que vai exigir de mim mais concentração e empenho. Não vejo como, nessas circunstâncias, poderia continuar a manter o blogue com o mínimo de qualidade que exijo a mim próprio. Ainda não alcancei os níveis de erudição que me permitiriam escrever um texto – por mais curto que fosse – sem necessidade de consultar outras obras, confirmar certas abordagens, certificar-me de que um determinado conceito é de facto empregue dessa maneira. Curto ou longo, todo o artigo custa-me, na verdade, horas de trabalho de pesquisa que me fazem falta noutras coisas, sobretudo nas coisas que me dão o pão de cada dia.
Vou continuar, na medida do possível, presente na blogosfera comentando aqui e ali, enfim, participando nos debates que de certeza vão continuar e com mais força ainda. Qualquer interpelação aos textos aqui reunidos – recentes ou antigos – vai continuar a merecer a minha atenção. Vou regressar ao convívio intelectual com o país pelo jornal, sobretudo pelo jornal Notícias e pela revista Prestígio, que não exigem de mim atenção constante e me permitem marcar o passo com o resto da nação. Nos últimos tempos descurei bastante a minha relação com o jornal Notícias, outra vítima da minha falta de tempo. Tratando-se dum órgão de grande circulação parece-me importante continuar a manter presença nele.
Aprendi muito com todos vocês. Aprendi com os que me deram palmadinhas nas costas. Aprendi com os que divergiram. Aprendi com os que queriam aprender de mim. Aprendi com os que se zangaram comigo e lançaram impropérios. Aprendi muito com todos, sem excepção. Os textos aqui reunidos são não só o meu monumento ao vosso entusiasmo, mas são também a memória de tudo quanto é possível aprender. Não posso fechar o blogue sem deixar pelo menos um conselho que resume tudo quanto tentei demonstrar nele. Uma das experiências mais dolorosas para mim nesta aventura do blogue foi de ver a forma disibinida como alguns, sem conhecimento de causa, eram capazes de não só defender posições logicamente problemáticas como também de ostentarem essa ignorância como acto de coragem.
A mais bela experiência foi de ver que há muitos mais que usam o debate de ideias como momento de questionamento daquilo que eles pensam saber. E esse é o meu conselho, na verdade: Usem a interpelação que fazem ao país e aos outros como um momento de aprendizagem. O desafio é esse. O desafio não consiste em dizer como o país é, como a política deve ser, como os outros devem ser, enfim, como o mundo deve ser. Não. O desafio consiste em sempre perguntar o que nós próprios podemos aprender a partir da interpelação que fazemos. O sentido crítico nasce aí mesmo. E uma vez nascido, não o deixem morrer, por favor!
Um grande abraço a todos!
Elísio
n.b. fico a dever esclarecimentos, séries interrompidas, artigos prometidos, etc. Um dia serei ajustado estruturalmente e aí vou saldar todas as minhas dívidas. Ou, sendo oficialmente declarado absolutamente pobre, vou conquistar o direito de contrair mais dívidas até novo ajustamento estrutural. E assim sucessivamente, njalu-njalu...